O gênio e os outros

Durante a Copa de 1990, comentando um dos jogos para a Globo, o impagável Chico Anysio disparou a melhor definição que já ouvi sobre a velha questão de quem é, afinal, o melhor jogador do Mundo em todos os tempos: “Se o Pelé fosse sequestrado, iriam pedir 10 Maradonas de resgate!”.

Maradona acabaria aquela Copa com o vice-campeonato, após a sua Argentina eliminar o Brasil nas oitavas de final. Ainda disputaria o torneio de 1994, do qual seria banido após ser flagrado no exame anti-doping. Pelé foi eleito o Atleta do Século XX e poucos – além do próprio Maradona – tinham dúvida sobre quem reinou acima de todos no futebol mundial.

Novo século, novos craques, eternas e inevitáveis comparações. Quem é o melhor: Pelé ou Messi? Estatística, quantidade de gols, títulos, relevância. Nada é capaz de convencer os que defendem um ou o outro. Muito embora, ultimamente, reste a Messi ainda ter que provar que é melhor que o português Cristiano Ronaldo – ambos empatados com cinco Bolas de Ouro, concedida ao melhor jogador da Europa.

Eu não tenho dúvida, claro. Pouco importa se jogou em outra época, se o futebol era diferente, se o jogo era mais lento (sempre que usam esse argumento, jamais mencionam como o jogo, também, era muito mais violento e menos punitivo), Pelé foi e é superior aos demais, sejam eles Maradona ou Messi. Ou ainda Cristiano Ronaldo, Eusébio, Di Stéfano ou Puskás.

 

E, para mim, o lance que ilustra esse post – e que marca a retomada do Infogol!, após quatro anos adormecido – é a síntese do que diferencia o Rei de todos os demais súditos: a genialidade. O jogo pelas semifinais de 1970 já estava decidido a favor do Brasil (3 a 1 contra o Uruguai), mas a antevisão da jogada, a ousadia, a capacidade ímpar de dosar a sua velocidade equilibrando-a frente ao deslocamento da bola e  a chegada de um atônito Mazurkiewicz, não podem ser explicados somente com as leis da física, ou com teorias da psicologia. Um lance atemporal, que não possui relação com preparo físico, esquema tático, velocidade do jogo. Um lance de Pelé, simples assim.

Foi o mais lindo gol, no qual a bola, teimosa, simplesmente não quis adormecer nas redes negras do Jalisco.  Ela, a bola, talvez tenha concluído que era melhor deixar somente o drible para a posteridade, e que o gol – só mais um entre mil e tantos e o quarto daquela partida – quem sabe, ofuscaria o ineditismo do lance. 

“A bola da Copa é o gesto sem bola de Pelé, aplicando em Mazurkiewicz maravilhoso corta-luz-clarão de inteligência que a memória dos meus olhos não esquecerá jamais.” (Armando Nogueira, no “Jornal do Brasil”, 18 de junho de 1970)

 

Post Author: infogol

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